Tuesday, May 24, 2005

o que é o poder?

Hoje deparei-me com uma pergunta séria: o que é o poder? Poder (o substantivo) significa ter autoridade sobre outrém - conseguir com que alguém faça aquilo que nós queremos simplesmente porque o queremos. Por outro lado, não é necessário que seja outra pessoa a fazê-lo; ao ter poder temos a liberdade de executar esse acto nós próprios. O importante é que aquilo que nós queremos acontece.
Assim, Napoleão tinha um poder imenso. Aquilo que Napoleão queria acontecia; Napoleão dizia que se ia atacar a Áustria, e a Áustria era atacada. Ninguém tem grandes objecções a isto. Agora, a verdadeira pergunta é porque é que Napoleão tinha esse poder.
As ordens de Napoleão eram seguidas porque ele era imperador. Mas certamente não é daí que provém o seu poder, pois Napoleão tornou-se imperador; e foi mais o facto de ele ter poder que o levou a ser imperador, não vice-versa. Para além de que o símples facto de ele ser imperador não lhe garantir poder: que sirvam de exemplos a queda da dinastia Romanov, ou da própria família real francesa. Aliás, foi esta mesma queda da família real francesa que possibilitou uma transferência de poder (absoluto) para Napoleão. Não que tenha sido uma transferência imediata - porque não foi; houve um vácuou de poder, inicialmente preenchido por uma república, que antecedeu a Napoleão e por esse tempo deteve o poder.
É de salientar, no entanto, que o poder que a república deteve não era da magnitude do poder que chegou às mãos de Napoleão; nem, já agora, da magnitude do poder da monarquia original. Isto porque era um poder menos centralizado - e como acontece sempre, com a descentralização houve uma perda de poder absoluto.
Mas o que foi então que levou a esta transferência de poder? Foi a revolução francesa. E esta foi causada por quem? Pelo povo... Foi portanto o povo que levou a que o poder passasse de Louis XIV para a república, e de seguida para Napoleão. Mas o que é que levou o povo a atribuir o poder às ditas entidades? Confiança? Lealdade? Esperança? Talvez um pouco dos três. Não sei. Certamente, terá sido alguma vontade colectiva - ou pelo menos alguma força apoiada pela vontada colectiva. Talvez tenham sido enganados, não seria a primeira vez.
A vontade colectiva (chamemos-lhe isto) levou a que Napoleão tivesse poder. Mas se é o povo que atribui o poder, isso não atribui poder ao próprio povo? Por Napoleão ter poder, fazia-se aquilo que ele queria... mas se o povo não gostasse, tirava o poder a Napoleão. Uma vez que Napoleão era megalómano, também não tardou em que isto não acontecesse. Não me parece que os franceses, por muito estranhos que sejam, tenham gostado de passar vinte anos a travar guerras com os seus vizinhos... O que me espanta é que com tanta História, as pessoas ainda não tenham percebido que a sua situação é condicionada por elas próprias: que se há vontade de mudança, que essa mudança só não acontece por receio de que o poder por elas instaurado não o permite - claramente um paradoxo a longo prazo.
A que conclusão se pode chegar? Que o poder é um aspecto essêncial e intrínseco das sociedades, que sem ela não se podem organizar, mas que por causa dela muitas vezes deixam de existir. Ou seja, quando se pensa muito nas coisas e se é muito redutivo, não se chega a lado nenhum...

"Nunca pensei que pudesse escrever algo tão parecido com um manifesto marxista!" -Martim Vaz Pinto, após ter lido o seu post

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