Lavagem ao cerebro durante o sono
Sempre fui um defensor da arte e da cultura.
Lembro-me desde que me posso lembrar, de ser levado pelos meus pais ao teatro ou à ópera, de ser incentivado a ler e a ver filmes.
Pois este hábito cresceu em mim e a curiosidade natural de querer descobrir o mundo num só dia também apareceu. Quis ler mais, quis ir mais vezes ao cinema ou ver filmes em casa, quis ir a concertos, quis ir ao teatro, quis ver o mundo. E fiz tudo isso.
E quanto mais via, mais queria ver. Queria saber tudo o que pudesse antes que o tempo acabasse. Ouvia com admiração as pessoas mais experientes, porque também queria aprender com elas. E assim segui a minha vida acompanhado duma fome desgraçada de conhecimento e cultura.
Ontem acordei um bocado mais tarde da hora de me deitar, mas ainda antes da hora de acordar. Devia ser aquilo a que chamamos “a meio da noite”, se é que ela pode ter meio…. Hora estúpida para acordar, pensei, mas um despertar repentino fez-me levantar da cama. Lembro-me de me perder em corredores que não eram os meus e divagar em quartos que não me pertenciam. Onde estava eu afinal? Silêncio. O fumo alastra-se a uma altura a perder de vista, porque oo tecto também se perde de vista. E está escuro. Aquela escuridão pintada de focos de luz opacos que nascem do tecto (mas o tecto não tem fim!). Senti-me deslocado, procurei naquelas paredes um tacto familiar que me fizesse reconhecer um quarto conhecido. Nada, estava ali sozinho! Acordei numa ilha, sem me lembrar de sentir o cheiro do mar.
De repente um barulho! Movimento! Luzes e cheiros. Uma corrida desenfreada! Um tiro! A acção não para. Encontro-me agora rodeado de personagens nunca antes vistas. Eles são os deuses deste mundo em que fui posto. Aqui, eles reinam e deixam-me assistir à sua loucura, às suas danças, aos seus barulhos, aos seus exaltamentos. Aqui os vejo caminharem sobre a água, darem cambalhotas em paredes flutuantes de papel de prata, furarem muros e murros, correrem e serem corridos.
A sua loucura apodera-se de mim, que quero agora ser um deles e com eles dançar e com eles grunhir barulhos que nada signifiquem. Sinto o peso insopurtável duma sociedade demasiado agarrada a convenções e invejo a sua liberdade, uma que eu nunca poderei alcançar.
Agora acordei, cansado, deslavado.
Já não quero cultura às colheradas.
Não quero saber nomes de realizadores de cinema.
Não quero saber o nome das sinfonias, nem o número dos seus andamentos, nem quem as compôs.
Não quero saber quem escreveu os livros que leio, nem tão pouco conhecer os nossos presidentes.
Agora quero ser livre.
Quero ouvir uma música e gostar sem ter que inseri-la numa corrente artística.
Quero ler um livro e gostar sem ter de interpretar o significado poético da angústia do autor relacionada com a sua obra.
Quero ver um filme e gostar sem ter de perceber a importância das características adjacentes à época em que foi filmado.
Quero poder desprender-me do peso do conhecimento.
Quero poder lembrar-me só das experiências que são em si um livro, um filme, uma música, uma peça, uma ópera…
Já não quero ouvir os intelectuais liberais falarem de como sabem o nome de todos os filmes e quem os fez e quem os representou e quem compôs a banda sonora, explicando de que maneira foi vivido na época e que peso tem agora na nossa sociedade na maneira como se reflete no trabalho de novos artistas.
Quero que tudo isto acabe, com a consciência de que não vai acabar.
Quero voltar para aquela ilha para ali ser louco como eles.
Quero pisar o mar e deslizar em paredes fltuantes de papel de prata.
Vou dormir com a esperança de acordar “a meio da noite”.
"Criados no silêncio, no resguardo, na calma,
Lançam-nos então ao mundo, de repente;
Banham-nos cem mil vagas,
Tudo nos interessa, muito nos agrada,
Muito nos desgosta, e de hora a hora,
Oscila a alma em leve agitação;
Sentimos, e o que tenhamos sentido,
É levado pela corrente
Do colorido turbilhão do mundo."
Goethe

2 Comments:
Gd Vito.
Lindo!!
Todos nós precisamos de “acordar a meio da noite” de vez em quando, e simplesmente apreciar as coisas pelo que são e pelo que nos fazem sentir sem termos de pensar muito nisso.
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