Eu e o Gigante

Sinto-me cheio de sorte: há 9 dias atrás, no passado dia 22, encontrei-me com um gigante. Conversámos e rimos, tratei-o por tu como se dum amigo se tratasse.
Ou melhor, estive com um gigante, pois ele não sabe que esteve comigo. Mas ouvi-o com atenção e ri-me com ele e, para mim, era como se converssássemos e era como se o tratasse por tu.
É uma história incrível mas triste, porque acho que nunca mais o vou ver.
Lá do alto (bem do alto, porque, diga-se, o 2º balcão do CCB não é propriamente baixo) olhei cá para baixo e, ironicamente, qual deus do olimpo, assisti ao que aquele velho gigante tinha para me mostrar. Mas o deus não era eu, mas ele, corcunda e atarracado, dobrava-se e torcia-se como uma serpente que me enfeitiçava.
O velho gigante soprava para uma velha harmónica e eu não me conseguia mexer. Sentia-me petrificado, a olhar para a serpente que, irrequita, se contorcia numa dança ritmada que acompanhava a sua música.
E quando o gigante parava, contava velhas histórias dos tempos remotos passados com os outros gigantes, que de tal modo se agigantaram, que mesmo não estando cá, é como se estivessem. E eu ouvia as histórias com o mesmo encanto com que ouvia a música e invejava o velho gigante pela vida que teve e pelo mundo que era dele.
Ria-me com os disparates, já próprios de quem está feliz com a vida e, de consciência tranquila, sabe que não vai morrer, nem cair no esquecimento. Aquele velho gigante sabe que vai ter com os outros gigantes para juntos continuarem as conversas deixadas a meio. As conversas, que gente pequena, como eu, não pode entender, mas pode ouvir e pensar, que no fundo, também entende, assim como também trata os gigantes por tu
Assim, passaram duas horas, e nós em mundos opostos.
Assim me perdi em devaneios e conversas que só aconteceram na minha cabeça.
E, quando já não havia mais música para tocar, nem histórias para contar, o velho gigante, lenta e esforçadamente, levantou-se da cadeira e despediu-se. E foi-se embora, sem voltar para trás, e eu sei que já não o volto ver.
Mas, como também sei que falámos e rimos, e o tratei por tu, lembro-me que antes de se voltar, olhou para mim e acenou-me.
E assim me despedi do meu velho amigo.
E assim me despedi do meu velho gigante.
"I feel best in that little space between a smile and a tear." - Toots Thielemans

6 Comments:
Simplesmente genial!Agora sim, com muito orguolho: Benvindo a bordo.
Vais puxar para cima a qualidade dos postes aqui escritos.
genial o toots... não o vosso novo reforço
FPS (à beira do desemprego)
moving.. very moving!
muito bom!
Gostei muito!
Acho bem isto: vou também dar um pouco de musicalidade ao blog em posts futuros.
PCH
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