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Olhei-o sem parar cerca de 5 minutos enquanto outras pessoas falavam de si no seu lugar. O seu rosto não satisfazia a minha curiosidade, não era capaz de discernir que raio se passava dentro daquela cabeça esguia que parecia agora, ao contrário de antigamente, às portas grisalhas da desfolhagem outonal.
Insatisfeito, afinal não obtera qualquer informação relevante, vi-o soerguer-se da sua cadeira e então percebi: ele estava muitíssimo bem preparado para aquilo, ele parecia estar apenas a cumprir a sua rotina (e estava mesmo!), ele não tinha quaisquer dúvidas do que ali estava a fazer. Vi o que descrevo na forma pausada como organizava os objectos que estavam em cima da mesa, na passividade com que, ora olhando para nós ora olhando o chão e a mesa e a lapiseira que segurava, se erguia falando umas palavras que memorizara para situações ocasionais como aquela. Já com ele de pé notei que talvez não estivesse ainda completamente senhor da situação: estava de costas curvadas arrumando uma vez mais a lapiseira sobre o bloco de notas e o bloco de notas sobre a sua pasta. Mas então fitou-nos a nós à espera dele, que cumprisse aquilo a que se propunha e assim, de repente, o anfiteatro caiu nos seus braços. E quando ligou o projector de slides até as moscas deixaram de sugar o tutano às mãos e aos cabelos e aos braços da cadeira em que estavam pousadas para assim ouvi-lo falar as palavras que tinha a dizer. Não havia vacas comendo cortinados naquela sala, nem cortinados para serem comidos por vacas, nem leprosos a contorcerem-se na agonia da sua doença espalhados pelos degraus das escadas do auditório; mas mesmo que os houvesse a todos, e que tal até obedecesse à naturalidade da ordem das coisas, tal não faria então sentido, a sala estava verdadeiramente serena. Ele havia domado o meio-ambiente!
Foi assim que eu vi Francisco Louçã apoderar-se de um auditório apinhado não de pinhas mas de gente, no edifício da Reitoria da UNL na passada quarta-feira. Francisco Louçã é franzino e tem feições pouco distintas. Tem ombros magros e não ultrapassa os 180 centímetros de altura. Porém a sua presença é forte, porque quando fala fá-lo com o corpo inteiro: fá-lo com a cabeça, fá-lo com os braços, fá-lo com as costas e com o tronco que balançam ao ritmo dos braços, fá-lo com a voz e com a garganta que parece arrancar ao fundo dos pulmões as palavras que a boca dispara, fá-lo até com a roupa que veste que parece dançar sobre os ombros que quase ondulam ao ritmo das palavras que diz. Francisco Louçã tem o dom da lábia, não da palavra, já que esse a meu ver implica congruência de discurso. Francisco Louçã pratica uma retórica de hipnose: ele conquista os públicos a que discursa como ninguém. Para tal só precisa de ter garantidos uns detalhes: é preciso seguir uma ordem e um método de discurso em que cada palavra cada menção tem o seu timing correcto; é preciso vincar bem, seja com vozes guturais seja com as rugas da testa, as palavras que ficam na memória das pessoas; é reciso conquistar todos os sentidos do receptor, é preciso que ele oiça e que veja ao mesmo tempo o que lhe está a ser dito, que ele não se distraia com a própria razão, com o seu próprio discernimento, não pode haver preconceitos na sua audiência, e daí os slides que projectou e projecta sempre que fala para plateias; é preciso chegar à razão das pessoas pelas traseiras, passando por cima das imperfeições do caminho, pulando os obstáculos de congruência.
Francisco Louçã faz estes discursos com uma perna atrás das costas:
1.Primeiro apaixona a plateia com histórias peculiares e extremamente interessantes que a deixam intrigadíssima com questões completamente à margem da questão central em debate. Fala da Ilha da Páscoa, refere-se aos talibans como os Pashtuns, diz mil e uma curiosidades acerca do Médio Oriente, mostra interesse e mostra o seu prazer em conhecer. Mostra que é culto e está erguida uma coluna na estrutura do seu debate.
2.Depois, já com a plateia hipnotizada, fala de um ou outro caso que tenham mais a ver com o assunto a que a princípio se propunha. Mas estes casos são especialíssimos, são verdadeiros coelhos tirados da cartola, são uma verdade absolutamente fantasmagórica nunca antes revelada. Outra coluna.
3.Entretanto Francisco Louçã vai falando de "política de verdade", de democracia, de "pedagogia política", e vai tentando consolidar estes conceitos, todos eles bastante vagos, nas cabeças das pessoas. Mais uma coluna.
4.Também é essencial que Francisco Louçã assente bem o descalabro da situação portuguesa e que enfatize bem o facto de ninguém estar salvo e que, de quando em vez como por exemplo agora, é verdadeiramente necessário "agarrar" as nações antes que estas se afundem pois - repete - neste mundo ninguém está a salvo.
E pronto: a casa está quase pronta e os remates são dados com a veemência gestual com que tudo isto é dito: o discurso está feito!
Passou-se por cima de quase tudo! Falou-se um bocadinho de segurança social, um bocadinho de investimento público, um bocadinho de gestão do orçamento, como se estivessemos estado ali sentados a ouvir um crítico interessado da nossa sociedade. Mas Francisco Louçã é candidato a Presidente da República e o que ele pretende fazer ninguém sabe ao certo.
Francisco Louçã só serve para fazer denúncias.
"Paris é Uma Festa" - Ernest Hemingway

2 Comments:
Muito interessante o texto. Gostei sobretudo da parte de que "...Francisco Louçã tem o dom da lábia e não o dom da palavra...". Acho que foi a melhor descrição que já ouvi dele. Mas quero salientar que o considero um excelente orador, apenas não concordo minimamente com as ideias dele.
sim senhor, finalmente alguém que consegue descrever o Francisco Louçã ao pormenor, e sem por um "mas ele até que..." lá para o meio.. ele só serve mesmo pa denuncias. é bem pedro
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