Wednesday, November 02, 2005

Hábitos

Há muitos anos que Sandrinha tinha uma vida feliz na companhia do seu primeiro e unico filho, Ronaldo, e do seu marido, Jarge . Orgulhavam-se de puderem dizer, com legitimidade, que eram uma familia feliz e também assim o consideravam os seus amigos, familiares e conhecidos. Eram de verdade uma familia feliz.

Ronaldo tinha agora 15 anos e desde o dia em que nascera fora a razão de viver e a fonte de felicidade de Sandrinha. Ganhara ela durante esses 15 anos o hábito, hábito que Jarge nunca conseguira entender, de comtemplá-lo durante o sono. Em todas as noites desses 15 anos após contemplar o seu rebento Sandrinha suspirava, depois sorria e antes de se ir deitar dava um terno beijo na testa de Ronaldo, como que a dar graças a Deus pelo seu Ronaldo, e por ter uma vida feliz, com tudo o que sempre quis e sonhou.
É que nem sempre fora assim. Tempos houve em que Sandrinha, uma jovem e irrequieta Sandrinha, bem diferente da Mãe Sandrinha, passou por maus bocados. Tempos turbulentos em que a vida lhe foi madrasta.

Até Sandrinha já se havia esquecido da razão que a tinha levado a contemplar o seu filho pela primeira vez. Era agora um simples e irreflectido hábito que a levava a fazer isso e isso permitia-lhe observar, viver e sentir o crescimento de Ronaldo. Parecia que não queria perder um só momento da vida do menino, vivia-a mais que a sua própria vida.

Mas numa noite Sandrinha acordou sobressaltada a meio do sono e levantou-se da cama num ápice, correu até ao quarto de Ronaldo e ali ficou a comtemplá-lo durantes duas horas. Durante duas horas a fio chorou enquanto ali estava ajoelhada aos pés de seu filho, sem nunca deixar de fitá-lo. Foi a ultima vez que Sandrinha comtemplou Ronaldo durante o sono. Foi nessa noite que aquele velho hábito passou a fazer parte do passado.

Nessa semana Sandrinha parou para pensar na sua vida, como nunca antes havia feito. Pensou em tudo o que fez desde que se lembrava de existir. Foram várias as vezes nessa semana em que Jarge apanhou Sandrinha a chorar a meio da noite, sem nada conseguir perceber.
Foi nessa semana que Sandrinha se lembrou do distante dia em que um seu outro filho morreu antes de nascer.
Foi nessa semana que ela sentiu raiva de Deus e O culpou por ter deixado que uma sociedade como esta emergisse, uma sociedade que a fez crescer e viver a pensar que era normal o que tinha acontecido.

Sandrinha cresceu numa sociedade que não condenava o aborto, que o havia, há séculos e séculos, liberalizado. Sandrinha cresceu a pensar que o aborto não era uma coisa má, que era normal e que não tinha qualquer consequência negativa, mas só vantagens. Não a podem culpar, foi isso que o mundo lhe ensinou e fez acreditar durante os seus 38 anos de vida.
Foi nessa semana que Sandrinha soube que há 18 anos atrás tinha cometido o maior erro da sua vida e, cheia de raiva, condenava Deus por a ter deixado crescer num Mundo que lhe ensinava coisas destas.
Nessa semana Sandrinha percebeu que afinal não eram duas células que estavam em jogo quando tomou a sua decisão (como sempre todos lhe haviam dito), que o que estava em jogo era a vida que não chegou a ser vivida , vida que inconsciente e irreflectidamente imaginou em todas as noites desses 15 anos enquanto comtemplava Ronaldo, vida que agora se arrependia de ter morto.
Mas nessa semana já era tarde demais para mudar o seu caminho. Percorreu o caminho que se avistava mais fácil e que todos lhe diziam para percorrer, com a porta completaente aberta, caminho esse que agora chegava ao fim.
Sandrinha encontostou nessa semana o cano de uma pistola à sua boca aberta e premiu o gatilho. Morreu e deixou um pai viuvo e um filho sem mãe. Morreu estupidamente porque nunca chegou a tentar ensinar o que tinha aprendido: Que abortar talvez não seja apenas eliminar duas insensivies e insignificantes células, que abortar talvez seja o pior caminho a fazer, apesar de parecer o mais fácil.
Morreu no dia em que se apercebeu que tinha matado o seu próprio filho, morreu quando percebeu que tinha morto o irmão de Ronaldo que nunca chegou a nascer.

"Jarge?" - Ronaldo a chamar por seu pai no momento em que se deparou com a sua balofa mãe morta aos pés de sua cama

3 Comments:

Anonymous Anonymous quis bondosamente e, com certeza, por puro respeito e apreço pelo autor deste post opinar o seguinte...

Pobre sandrinha, não lhe serviu de nada a vida, antes tivesse sido ela a morta desde o início..
PCH

10:03 AM  
Anonymous Anonymous quis bondosamente e, com certeza, por puro respeito e apreço pelo autor deste post opinar o seguinte...

Por acaso, agora que me pões a pensar...Devia também ter dado cabo do ronaldo.
Miguel Costa ( o "Patrão" )

10:44 AM  
Anonymous Anonymous quis bondosamente e, com certeza, por puro respeito e apreço pelo autor deste post opinar o seguinte...

Um tanto machista, outro tanto de direita...

10:35 PM  

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