Porque não funcionam as manifestações
"Bernard exasperava no meio daquela gente. As multidões são criaturas muito estúpidas que actuam muito devagar. Qualquer um dos elementos de uma multidão é mais inteligente do que o todo em si."
Assim descreve Ian McEwan a multidão que a 9 de Novembro de 1989 estagnou horas a fio às portas de Brandenburg, no centro de Berlim, pelo lado oriental. Estiveram ali dia e noite milhares de pessoas que pacificamente queriam ver o Muro cair, e estava acordado que cairia sem que houvesse necessidade de pelo meio cairem também homens vítimas de exaltação, entusiasmo ou fúria humana. Todos o sabiam e ainda assim choveram pedras de calçada a três palmos de distância dos militares soviéticos, que atónitos tiveram de interromper a conversa simpática, travada de ânimo leve com os colegas de trabalho americanos e ingleses. E no entanto ninguém naquela multidão queria violência, ninguém queria mais do que caminhar para os jardins que ficam para lá dos quatro cavalos, ninguém queria mais do que dar uma olhada ao Reichtag, uma vista de olhos a um estrangeiro que era ao mesmo tempo a sua própria casa, niguém queria mais que caminhar e aproveitar o cigarro ou a cerveja que empunhava numa das suas mãos. E porque todos estavam pacíficos niguém se considerou responsável pela violência: a responsável foi a estúpida da multidão!
Resultado? Só dias depois caiu o muro pelo lado da Porta de Brandemburgo, os berlinenses tiveram que entrar na sua própria Berlim pela "porta das traseiras".
Não é só em Berlim que as multidões são burras, em qualquer lugar o são: nos estádios de futebol, nas manifestações em frente a S. Bento, no Terreiro do Paço ou pela Av. da Liberdade abaixo, em qualquer lugar as multidões ficam empobrecidas de inteligência, degeneram as qualidades individuais numa brutalidade conjunta. As multidões são como um fugido de um manicómio cujo cérebro não consegue controlar os músculos, cujos sentidos ficam deturpados pela confusão sonora, cujo discernimento se deixa influenciar pelos diabinhos da consciência - esses bananas que se infiltram no coração da confusão e que arremessam a primeira pedra - que lhe sussurram aos ouvidos boatos que geram violência. Também são muito lentas as multidões, diz Ian McEwan, e são mesmo: e por isso são lentas a gerar violência mas também o são a cessar fogo; são lentas a ouvir a foz do líder, a voz da sua consciência. E por isso as multidões raramente conseguem o que querem. Não o conseguiram em Brandenburg em 1989, não o conseguiram em Dublin em 1972 - também porque as multidões militares quando não são bem treinadas estupidificam-se na initeligência das bestas armadas - não o conseguiram em várias outras manifestações. Se nas primeiras que foram organizadas o desastre podia ser dado como uma surpresa, hoje em dia tal já não é desculpa coerente. Não defendo que as manifestações devam ser abolidas, mas defendo que se responsabilizem os organizadores que apoiam os seus cotovelos no bom-senso dos homens e mulheres que constituem a sua 'armada', esquecendo-se que há uma outra criatura muito maior a domar e a dotar de inteligência e de bom-senso: a multidão em si.
"Age de tal modo que o dever de estudar se transforme na tua vontade" - Feliciano José

2 Comments:
tens sempre k ser melhor k todos.. nao aguentas por um post como toda a gente.
boas! se metes tretas, mais vale so escreveres uma vez!
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