Friday, November 04, 2005

O fim da triologia

( Nota: sem pensar muito nisso há que começar pelo post " Brutus", depois há que ler o poste " Hábitos e só depois ler este.Over and out.)

Os dias seguintes à morte de Sandrinha não foram nada fáceis para Ronaldo e Jarge. Todo e cada um dos dias seguintes, até ao resto das suas vidas.
Nunca conseguiram Ronaldo e Jarge perceber porque motivo aquela mãe e esposa feliz decidira de um dia para outro por um ponto final à sua vida que, aparentemente, era feliz, a roçar a perfeição.
Jarge foi o primeiro a sucumbir à tristeza. Numa noite fria, sentindo-se sozinho na sua cama de casal, outrora aconcheguedora, mas agora fatalmente vazia, saiu de casa em busca de algo que nem ele sabia o que era, talvez fosse a razão para o subito suicidio de Sandrinha. Caminhou cabisbaixo durante horas e horas, por caminhos que nem ele conhecia, logo ele, que conhecia o bairro e as redondezas como mais ninguém no bairro e nas redondezas. Ao fim de quatro horas de caminhada, quando Jarge já não sabia onde estava nem que direcção lhe apontava o Norte, a chuva começou a cair intensamente e em menos de trinta segundos já ele estava totalmente ensopado. Desesperado começou a correr, em frente, sem saber para onde ia. Passados 100 metros de correrias avistou uma luz acesa. Entrou. Era uma tasca ao estilo de loja de conveniência, aberta 24 por dias. Eram poucos os clientes que lá se encontravam aquela hora, uns cinco ou seis homens com aspecto duvidoso que pareciam ter sido derrotados pela vida há já muitos e longos anos. Na tasca estava também o empregado: um senhor barrigudo, de barba cerrada e com suor a escorrer pela face.
Como a chuva não parava de cair, nem dava sinais de ir dar tréguas assim tão cedo, Jarge acomoudou-se numa das sujas mesas vazias e pediu uma cerveja e uma "sandes de courato", o seu marisco preferido, como ele gostava de dizer. A chuvada não cessava e à primeira cerveja seguiu-se a segunda, e à segunda seguiu-se a terceira e assim, ao fim de algum tempo, Jarge já tinha perdido a conta às cervejas que tinha bebido.
Há largos anos que Jarge não apanhava uma bebedeira de tal tamanho...Às vezes bebia, é certo, mas só o suficiente para apanhar uma alegria nas festas de familia, ou nos bailaricos lá do bairro...
Quando já não se conseguia lembrar de quem era, Jarge levantou-se e pediu ao Sr. Matias (empregado da tasca) que lhe chamasse um taxi. Apesar da desarticulada fonética o Sr. Matias conseguiu entender Jarge e lá lhe pediu um taxi.
No dia seguinte Jarge dormiu até às cinco da tarde e como tal faltou ao trabalho. O seu encarregado não lhe perdoou a falta. A faina estava com excesso de pessoal e uma falha daquelas era, naquela altura de crise, imperdoável e a desculpa perfeita para despedir um trabalhador.
Jarge ficava assim desempregado.
Nessa fase especialmente dificil Jarge viu na bebida um escape para a tamanha desgraça que, de repente, lhe assolava a vida, que era até então perfeita.
Foi num desses dias que Jarge bateu pela primeira vez em Ronaldo.
Jarge perdeu-se nas ruas da amargura e entrou no mundo da droga e viria a morrer alguns anos mais tarde com uma overdose de Heroina.


Infelizmente não foi esse o destino de Ronaldo.
Quando o Pai se começou a perder Ronaldo teve de começar a trabalhar, deixando assim um incompleto nono ano no curriculo escolar. A principio as coisas não lhe correram bem, era muito tenro para trabalhar nas obras pelo que foi despedido ao fim de uma semana de trabalho como serviçal. Seguiram-se outros trabalhos em que Ronaldo falhou igualmente.
Ronaldo conheceu nesses tempos as pessoas erradas e chegou mesmo a entrar em esquemas ilicitos, foram as primeiras linhas do seu cadastro.
Mas não se preocupem, como havia dito, Ronaldo não se perdeu nos caminhos da droga nem do alcool (infelizmente, repito).

Num dos esquemas em que se meteu Ronaldo conheceu o dono de um ginásio que lhe ficou a dever um favor. Numa fase em que estava desempregado Ronaldo começou a ir ao ginásio e a encher, até que chegou o dia em que estava um autêntico armário.
Foi nessa fase da sua vida que começou a ser conhecido por Brutus.
Bem o resto, o resto voçês já sabem.

"Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão" - dito popular

1 Comments:

Anonymous Anonymous quis bondosamente e, com certeza, por puro respeito e apreço pelo autor deste post opinar o seguinte...

...Dos melhores posts do Costa!!
PCH

9:43 PM  

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