"A Streetcar Named Desire"
Arrumo na minha cabeça, em estantes, armários e caixotes, os livros que leio e os filmes que vejo. Guardo também música, algumas peças que vi ou concertos a que assisti e, felizmente, o espaço que sobra é muito maior do que o ocupado. Por vezes percorro estas estantes em busca de referências passadas, onde tento evitar que o pó se acumule e onde, por vezes, encontro memórias mal tratadas e folhas rasgadas.
No meio destes arquivos, aos quais só eu tenho acesso, há um salão nobre, muito maior que qualquer outro, unicamente dedicado ao cinema, arte maior, que aqui se superioriza às outras 6.
Este salão, devido à sua dimensão, encontra-se dividido em salinhas e saletas, onde a burocracia leva a que tudo se catalogue por nome de filmes, realizadores, actores, banda sonora, argumentistas ou ano de produção.
Das prateleiras desta sala saltam as personagens e personalidades que me marcaram percorrendo as salas com uma liberdade total, misturando-se entre si e convivendo umas com as outras, sem qualquer noção de tempo ou era que as distancie.
Aqui ou ali Hitchcock convive com Godard e Truffaut. A um canto Visconti dá umas palavras a Burt Lancaster que se distrai com a beleza de Claudia Cardinale. Esta última encontra-se com Brigitte Bardot que acaba de conhecer Jack Nicholson. Tarantino anda perdido, e foca-se numa conversa entre Bernard Herrmann e John Williams. Woody Allen passeia-se a tocar clarinete e tudo se confunde numa espessa nuvem que ao longe se assemelha a uma massa acinzentada.
Este enorme convívio passa ao lado de uma personagem que devido ao seu brilhantismo se agigantou demasiado para caber nos pequenos espaços reservados àqueles que são mortais nesta cabeça
Marlon Brando, esse(!), o maior de todos…, aquele que nunca morreu. Brando vive aqui, imortalizado, não só pelo génio em que se transformou enquanto Terry Maloy, Don Vito Corleone ou Coronel Kurtz, mas também pela controvérsia duma personalidade que nunca se conformou com convenções.
Porque uma personalidade não é só uma carreira, mas também um conjunto de atitudes que a faz distinguir daqueles que se contentam com o medíocre. Brando soube abdicar do protagonismo vaidoso, que leva tantos a cair no ridículo, em nome de causas maiores que lhe custaram fracassos na vida.
Brando é uma gritante vontade de mudança!
Brando é mesmo o maior de todos!
Ver Brando em cinema é um autêntico privilégio. A sua presença, essa que vai muito para além da sua projecção, mas que se projecta por toda a sala num realismo e numa vivacidade fora do comum é, por si só, cinema.
Brando foi um pioneiro. Foi a demonstração do “método” da Actor’s Studio idealizado por Lee Strasberg. Foi o instrumento que desencadeou a mudança.
E é numa sala grande que guardo Brando, esse gigante, dentro da minha cabeça.
E nesta sala guardo o Brando que já vi e o Brando que já li em registos que se acimentam num bloco de admiração e constante surpresa.
E renovo esta sala com memórias que possa recolher no mundo que está à minha mão.
Foi o que fiz na passada terça-feira.
“A Streetcar Named Desire” (“Um Eléctrico Chamado Desejo”) foi o segundo filme de Brando. A peça de Tennessee Williams, transformada em filme por Elia Kazan, o mestre, lançou Brando, no papel de Stanley Kowalski, definitivamente na porca indústria cinematográfica. Aquela que nunca foi suficientemente grande para ele.
É este o início de Brando (aquele que me faltava conhecer). É aqui que podemos ver o primeiro Brando enquanto actor, porque aquele que apareceu no Barrymore Theatre em 1947, foi uma dádiva concedida apenas a poucos.
É aqui que se percebe que Brando é cinema.

"Parecia que a maior parte dos homens realmente bons perdiam o autocarro. A vida é só uma, e se se perde o autocarro fica-se sozinho no passeio com a carga de todos os fracassos."
D.H.Lawrence

2 Comments:
as Mais fazem anos!!! vai ao nosso bog e habilita t a 1fantastico prémio!!
Oh Yeah!
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