Ainda bem que o Mundano não é em Paris ou já tinha sido incendiado
Passa-se que a Clínica de Recuperação de Autistas em Estado Avançado de Definhamento (CRAEAD) era uma clínica boa. Isso mesmo, boa sem comparação. Boa a priori. Boa como a boa-vontade. Era mesmo uma boa clínica. Mais boa que melhor, mais boa que impecável, mais boa que espectacular: era boa! E como era boa chamava-se Clínica e não Hospital (embora também a fonética da sigla tenha influenciado a escolha de 'Clínica'). Explicado que está este ponto passemos ao seguinte: por ser boa, a CRAEAD garantia aos seus pacientes, ainda que todos eles em puro definhamento psico-motor, uma vasta diversidade de estruturas de entretenimento que garantissem um divertimento rejuvenescente a todo e qualquer padecente que folgasse ressusscitar. Vinte e quatro horas por dia era aparada a relva do campo de futebol; era batida a terra do campo de tènis; era regada a relva do parque de baloiços; eram substituídos os CD's na aparelhagem de som; eram oleados os travões das bicicletas; era limpado o pó aos livros da biblioteca; eram polidas as peças do tabuleiro de xadrez; eram registados os tempos nas pistas de atletismo, dos concorrentes ronronantes que corriam para a morte a 300 metros dali, deitados nas suas camas; eram medidos os saltos em comprimento na areia ainda virgem que chorava a melancolia dos velhos tempos em que vivera no Sahara, pisada sem piedade por camelos, cobras e ursos polares; era testada a segurança das cadeiras eléctricas que levavam niguém ao topo da montanha, pela qual descia em curvas delicadas e estreitas uma pista de esqui de neve alva e inviolada, esperando o toque orgiástico dos esquis que nunca reconhecera; eram scanados os discos rígidos dos computadores!
Bernardo acordou dia 4, não foi dia 5, Bernardo acordou e balançou-se que nem um pinguim até ao Departamento de Entretenimento: aí aconteceu o orgasmo intelectual pelo cortex frontal direito de todos os membros daquela clínica, ao verem um pinguim assustado meio encostado à ombreira da porta meio deitado no chão. Todo o resto do dia 4 Bernardo foi feliz a jogar à bola, a bater com a raquete no ar, a andar no escorrega, a ouvir música com os seus head-phones, a fazer cavalinhos na sua bicicleta, a ler a bíblia na biblioteca, a jogar xadrez sozinho, a bater os recordes da casa na pista de atletismo, a fazer castelos de areia, a fazer bonecos de neve, a passear-se pela web. À noitinha, já com os olhos em bico e com o coração a ameaçar estoirar, Bernardo leu o seguinte:
Directório Google - World > Português > Informática > Internet ...
Mundano - http://blogociclos.blogspot.com/ Crítica, humor e cotidiano. Por um
grupo de rapazes de Portugal.
Foi então que ocorreu outro orgasmo cerebral, o do Bernardo, de tão entusiasmado ter ficado com o sucesso de qualquer coisa que deixara orfã no dia do seu nascimento, de um rebento sem graça que era agora uma enormidade colossal! E como o orfão não tem ressentimentos (duvido até que tenha sentimentos!), Bernardo apareceu finalmente, qual filho pródigo em versão pai, qual Dom (ou será São?) Sebastião no seu cavalo branco mas às manchas, porque a perfeição às tantas farta.
Bernardo é como o pai que não ensina o filho a falar, deixa-o que aprenda sozinho para depois conversar sobre poesia!
Sê benvindo!
"Onde houver estudo há boa gente" - Feliciano José, dispensa apresentações

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