Ainda sobre Sandrinha
Sandrinha era esquecida.
Vivia "meio lá meio cá" como alguns dizem e com muito acerto, embora poucos saibam onde fica o lá e onde se encontra o cá. Era tão esquecida que chegara a esquecer-se que existia num destes dias. E deixou-se ficar sentada num banco de jardim, ainda hoje não sabe bem a fazer o quê, embora esteja certa de não ter feito grande coisa, tanto que quando quatro dias após o incidente chegou a casa se achava tal e qual como se tinha achado quatro dias antes, ou talvez já se tivesse também esquecido de como se achara anteriormente e fosse aquela sensação de semelhança apenas sujeição psicológica.
O problema de Sandrinha era grave porque se aplicava a toda a plenitude do seu ser: Sandrinha era mesmo esquecida a todos os níveis, não apenas no que dizia respeito a coisas que achamos passíveis de serem esquecidas: Sandrinha esquecia-se de si mesma, esquecia-se que era mulher quando ia à casa-de-banho, esquecia-se que estava vestida quando ia tomar banho, esquecia-se de dormir, esquecia-se de que é preciso andar, esquecia-se de piscar os olhos, esquecia-se de abrir a boca quando aí levava o garfo, esquecia-se de pegar no lápis ou de pôr a folha por baixo quando começava a escrever, esquecia-se de respirar, esquecia-se de que as paredes são sólidas e intransponíveis, esquecia-se de que estava sentada na retrete quando aí estava sentada e esquecia-se mesmo daquilo de que se relembrava.
Esta característica de Sandrinha era de tal modo preponderante na sua personalidade, que se notava tanto no trato com a sua pessoa, como se nota nas bordas da boca cheias de saliva condensada de alguém que fala sem boa dicção.
Sandrinha abortou um filho seu, está certo, mas Sandrinha fez mais embora se tenha esquecido, Sandrinha morreu por mais do que aquilo que em espírito lhe relembram:
Sandrinha esqueceu-se que tinha morto o seu pai, Sandrinha esqueceu-se que tinha cometido incesto com Ronaldo, Sandrinha esqueceu-se que tinha esfaqueado o seu cão cento e cinquenta vezes no peito, Sandrinha esqueceu-se que era puta e que trabalhava dia sim dia sim na avenida João XXI, Sandrinha esqueceu-se que tinha as panelas da cozinha almolgadas porque dava com elas nas cabeças das crianças que lhe pediam doces na noite de Halloween, Sandrinha esqueceu-se do que faziam todos aqueles miolos de vaca acinzentados pelo tempo num alguidar que tinha na casa-de-banho, Sandrinha esqueceu-se porque tinha desaparecido Jarge desde aquela noite em que o acorrentara ao veio de transmissão do seu carro.
Sandrinha esqueceu-se que se matou, não porque tinha abortado alguém que agora não recordava, mas porque não valia mais que uma moeda de dez centavos de 1978, porque era tão valiosa para os seus como diarreia dum porco infectado com H5N1.
"Mais vale um trabalho feito com rigor e ponderância, do que um rabisco à última hora" - Feliciano José, líder espiritual dos nerds

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