Saturday, December 24, 2005

145. Afinal Fernando Pessoa até nem estava muito desassossegado.

"Era um milionário americano e tinha sido tudo. Tivera quanto ambicionara - dinheiro, amores, afectos, dedicações, viagens, colecções. (...) Quando depunha o jornal sobre a mesa (...), reflectia que o mesmo, na sua esfera, poderia dizer o caixeiro de praça, mais ou menos meu conhecido, que todos os dias almoça, como hoje está almoçando, na mesa do fundo do canto. (...) Os dois homens conseguiram o mesmo, nem há diferença de celebridade, porque aí também a diferença de ambientes estabelece identidade. Não há ninguém no mundo que não conhecesse o nome do milionário americano; mas não há ninguém na praça de Lisboa que não conheça o nome do homem que está ali almoçando.(...)
Se me disserem que é nulo o prazer de durar depois de não existir, responderei, primeiro, que não sei se o é ou não, pois não sei a verdade sobre a sobrevivência humana; responderei, depois, que o prazer da fama futura é um prazer presente - a fama é que é futura. (...)
O milionário americano não pode crer que a posteridade aprecie os seus poemas, visto que não escreveu nenhuns; o caixeiro de praça não pode supor que o futuro se deleite nos seus quadros, visto que nenhuns pintou. (...)
Eu, porém, que na vida transitória não sou nada, posso gozar a visão do futuro a ler esta página, pois efectivamente a escrevo; posso orgulhar-me, como de um filho, da fama que terei, porque, ao menos, tenho com que a ter. E quando penso isto, erguendo-me da mesa, é com uma íntima majestade que a minha estatura invisível se ergue acima de Detroit, Michigan, e de toda a praça de Lisboa. (...)
Com estas psicologias metafísicas se consolam os humildes como eu." - Fernando Pessoa in, O Livro do Desassossego

Oitenta e tal anos depois ele tinha razão.
Concretizou-se a pequena psicologia metafísica de então, desagregou-se a fama convicta conquistada por exércitos de dinheiro e de lábia social. Um pensamento vago, volátil e ligeiro passou intermitente para o papel, porque era assim que ele se dava à vida, e durou mais do que as letras prensadas do jornal, todas encavalitadas de modo a ostentar entre si a fotografia do famoso americano. A fama, o sonho então improvável, voou até nós como um pensamento que resiste ao tempo e que lhe há de resistir sempre, não apenas porque foi escrito mas também pelo valor que se lhe deve.
O exemplo é simples e claro: Fernando Pessoa moldou a sua própria fama; delineou-a humilde com a paixão de quem vive como pensa que lhe foi destinado que vivesse. E a fama demorou mas brotou da honestidade. A fama demos-lha 'nós' em buscas que fizémos aos caixões póstumos que em sua casa ficaram, cheios de papeis desordenados, brotando pensamentos humildes e simples como este. Não pediu favores a ninguém, não usou discursos enganosos, não sujou as mãos com dinheiros duvidosos, não empurrou ninguém para fora do seu caminho, não espezinhou gente, apenas escreveu o que pensava e assim subiu ligeiro acima de todos os outros, transpirados pela ganância da reputação.


"A glória não é uma medalha, mas uma moeda: de um lado tem a Figura, do outro uma indicação de valor. Para os valores maiores não há moeda: há papel e esse valor é sempre pouco." - Idem

1 Comments:

Anonymous Anonymous quis bondosamente e, com certeza, por puro respeito e apreço pelo autor deste post opinar o seguinte...

póstumos.
FPS

10:23 PM  

Post a Comment

<< Home