Sunday, June 11, 2006

E ao Tri-Centésimo Trigésimo Terceiro Dia,

Quando Feliciano José voltou a acordar já os seus genitais haviam encerrado em si a bala que os atentara sem pudor.
Trezentos e trinta e três dias havia Feliciano José dormido como que morto depois do atentado de que fora vítima. E embora ao quarto dia já um olho tivesse aberto em plena consciência de si, resolveu quedar-se por mais trezentas e vinte e nove manhãs com o outro cerrado, pois que lhe parecia ser esse o período de convalescença cuja referência mais apropriadamente serviria, à corrente de bisbilhotice que mais tarde se haveria de criar em torno do tema da sua primeira morte.
Conviviam agora não dois mas sim três felpudos irmãos, entre as duas pernas de Feliciano. E embora um fosse falso e metálico e tilintasse até quando chocalhado, de fora em aparência todos eles pareciam ser enormes testículos em forma de ninhos de rato de tanta e tão farfalhuda barba. Passaram pois também a ser três as necessidades fisiológicas dos homens de Nação, conforme previsto nas entrepernas do Santo do Conhecimento (assim deviam ser lidas as Sagradas Escrituras: por linhas e entrelinhas por pernas e entrepernas, pois se Feliciano José ordenava o conhecimento por palavras que proferia também o fazia nos actos que praticava)
Imaginem que efeitos colaterais não terá causado esta mudança nos cânones da anatomia humana: é que se alguns testículos os havia para quem deles precisasse como prótese, não os havia em tão grande abundância que se pudesse satisfazer com prontidão esta súbdita vontade de todos os homens, de fazer nascer mais um irmão entre as pernas. Houve gente que chegou a aplicar cola UHU abaixo da bexiga e então colado uma bola de pingue pongue, disfarçada de colhão a canetas de feltro, junto de seus outros irmãos. Houve até quem, em desespero de causa, tenha baleado a sua própria genitália a ver se a cicatrização corria tão bem quanto a do Senhor do Saber, ou cortado à catanada e a sangue frio aquela que já tinha, a ver se a moda pegava e superava a Ordem Divina.
O que é certo é que aquele novo apetrecho em nada favorecia a vida quotidiana masculina. Uns queixavam-se que era incómodo porque se entalavam com inconveniente frequência; uns outros lamentavam-se que o excesso de munições pusera em causa a logística dos canhões e que por isso as mulheres os haviam deixado; outros ainda queixavam-se de que o peso era excessivo e que lhes enjoava andar assim, tão perto do chão; havia também quem, com uma mão nas costas e outra em concha à frente da boca, vociferasse cognomes aviltantes não às suas hérnias, mas a esse Deus terreno que havia ressuscitado ao tri-centésimo trigésimo terceiro dia.
No seu Palácio das janelas embaciadas, Feliciano José vivia absorto em sua própria felicidade. Nada o parecia incomodar nesta nova ordem de vida. Não tinha hérnias nem comichões, nem dificuldades logísticas, nem sequer conseguia ouvir as queixas que morriam no embaciado de suas janelas. E quando de novo lhe arrombaram a porta do Palácio do Santo Conhecimento, os trinta e três revoltosos de há trezentos e trinta e três dias atrás, agora com as costas curvadas, o nariz no chão, os três tomates a arrastarem-se em suas entrepernas e as caçadeiras armadas na riste que lhes era possível, Feliciano José não deixou de lhes sorrir, também ele de arma em riste e apontada não para os revoltosos mas para a sua própria genitália...

"As rãs não são boas de se domesticar, porque às tantas só apetece esborrachá-las" - Anónimo

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