A queda do muro
Lembro-me, com pena, do remoto dia 13 de Agosto de 1961, dia último em que vi um bom amigo.
Lembro-me, com muito mais alegria, dos anos vividos antes desse dia.
Da esperança e do ânimo vividos no pós-guerra. Da alegria da imagem de Churchill, Truman e Stalin juntos num aperto de mão, para fazer acreditar ao mundo que a partir de aquele Agosto de 45 tudo seria diferente.
Lembro-me de, nesse tempo de liberdade, ter um velho amigo de copos, cuja barba era alvo de piadas permíscuas e javardices de cariz sexual pouco próprias para abordar neste post.
Lembro-me desse meu amigo à distância. Lembro-me (ou talvez não) das noites deambulatórias de bebedeiras despropositadas acabadas algures entre o estar quieto e o não fazer nada. Lembro-me de jantares na Trindade, das canecas de meio litro de imperial viva e amarela que nos ajudavam a lavar a boca e empurrar a carne (do pojadouro, por estarmos em crise) mal mastigada pela garganta abaixo. Lembro-me, de nesses jantares, cantarmos os parabéns a todos os que estavam na mesa sem que ninguém fizesse anos. Lembro-me de tentar tirar fotografias ao homem que nos tentava tirar fotografias. Lembro-me das noites de vício, das cartas mal postas sobre o velho pano verde, das vazas mal baldadas, dos pontos mal contados, dos dinheiros emprestados e dos perdedores endividados.
Lembro-me de tudo isso de viva memória e com contentamento.
Mas lembro-me igualmente da terrível noite de 12 de Agosto de 1961, em que Bernardo, andava sozinho pelos largos passeios da dislumbrante Friedrichstrasse, em que já se respirava o ar rarefeito do clima de tensão entre dois polos opostos. Ali aquele rapaz jovem, distraído por natureza, e ingénuo por idade, se deixou ficar, sem reparar que a sua bela Berlim se dividia em duas metades.
No dia seguinte, ao acordar, porco e mal lavado porque havia dormido na rua (Bernardo era pouco abonado e por isso vendia o corpo) apercebeu-se que acordara tarde demais para voltar ao mundo que amava.
Bernardo havia ficado do lado de lá.
Bernardo havia ficado do lado de lá da liberdade, da civilização, da opinião, da cultura, dos amigos, da família.... e Bernardo haveria de lá ficar por 28 longos anos.
Bernardo encontrava-se agora preso no Bloco Oriental da Alemanha Democrática idealizada por Stalin e agora concretizada por Kruschev.
Bernardo iria viver 28 anos de violação intelectual. E tal como oferecera o corpo aos clientes por dinheiro, oferecia agora a sua alma ao terrível governo de Kruschev, e mais tarde ao do demoníaco Brezhnev, e por fim ao do osculador Gorbachev e assistiria ao chanceler Honecker declarar que “Wird 50 und 100 Jahren noch bestehen bleiben, wenn die dazu vorhandenen Grunde noch nicht beseitigt sind.”, já no ano de 89.
E durante este período de violentação e opressão comunista, Bernardo, frustrado por se ver privado dos seus direitos, das suas amizades, entrou num estado de atrofio cerebral profundo e preocupante, durante qual (e por que não quis ser excepção) comeu, de facto, criancinhas ao pequeno almoço.
E, enquanto Bernardo sofria do lado de lá, nós prosperávamos do lado de cá num mundo capitalista com a tecnologia e a ciência ao nosso dispôr. Vivíamos despreocupados e a nossa situação melhorava a cada ano que passava. Já não pensávamos em Bernardos, e daquele velho e atrasado Bloco de Leste, só a selecção de futebol (a incrível RDA) era recordada, mas mesmo esses não quiseram regressar depois de disputarem o Europeu em 1980.
E foi então no dia 9 de Novembro de 1989 (ou terá sido no dia 5 de Novembro de 2005?) que o muro caíu e fez ruir sob as nossas cabeças, o peso do pó dos esquecidos, dos vagabundos sem nome, que durante 28 anos (198 posts) andaram esquecidos e perdidos, fechados, murados, sozinhos, afastados da civilização que é este Mundano que agora cresce e toma proporções de grande blog ocidental.
Resta saber se Bernardo voltou como dantes, disposto a juntar a sua sabedoria ao nosso abardinanço, ou se o regime comunista lhe lavou a cabeça de tal modo que já só dá um ar da sua graça enquanto saboreia a coxa tenra duma qualquer criança perdida.
Até saber, que sejas bem vindo.
“Mr Gorbachev, tear down this wall!”- Ronald Reagan, 1987/06/12

1 Comments:
Don vini no seu melhor!
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